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Novamente Heitor

Aquele era um dia estranho, e meu encontro com o senhorzinho Heitor  se repetira. Energia renovada, mais calma e serena, talvez eu já tivesse realmente absorvido tudo aquilo que o velhinho me passou.
Há quem não acredite, mas para mim, essas coisas não são por acaso, e talvez sejam muito mais do que eu consigo entender.

Essa semana Senhor Heitor pegou ônibus comigo novamente, dessa vez, não nos sentamos próximos, nem sequer conversamos, dessa vez, eu estava bem, e isso o fez ficar quieto. Um sorriso, aperto de mão e “hoje sua carinha está melhor, vai com Deus, menina”.

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Heitor 407

Fora de mim, estressada, agressiva e com um bocado de problemas. Aquela semana na qual, se eu pudesse escolher, não teria colocado meu pé pra fora do meu quarto. Acordar cedo, trabalhar, estudar, estressar, sem folga, sem recesso, sem fim.  Semana punk, trabalho trash e um emaranhado de perguntas sem resposta alguma.

Eu nem me lembro que dia era, a torcida era somente para que esse dia também se acabasse. Peguei o ônibus, quase onze da noite, de pé na parte da frente, unico lugar vasio. Um senhor deu sinal, entrou no onibus se sentou onde havia vaga, bateu a mão, sinalizando que eu poderia sentar ali caso fosse minha vontade, fui, e levei comigo toda a energia ruim que me rodeava. Moço do sorriso acolhedor, um jovem velho, ou talvez um velho jovem, 83 anos, mas passaria tranquilamente caso resolvesse falar 60 e poucos.
Cheio de ditados, frases e chavões, me entretia de uma forma estranha, me deu conselhos, como se já fosse de casa, me falou da vida, como se soubesse as respostas para  minhas perguntas. Se apresentou pra mim, disse até onde morava, eu sentia que já o conhecia, e ele me olhava, com aquele ar de quem já é intimo, o acolhi como um avô, como um mestre, um sábio talvez, ele me acolheu também, e disse “tão nova, tanta bagagem, não vai ser tão difícil aprender tudo que você tem que aprender aqui”, “seu Heitor” acabará de me colocar para pensar, nisso e naquilo também, nas coisas que eu já aprendi a grosso modo, por ter que aprender, nas outras que eu posso escolher como aprender.

E eu aqui, cheia de confusões, carregando comigo a nuvem negra que poderia atrapalhar a evolução. O moço disse ” mesmo os mais jovens se cansam, mas oh, não desiste não, eu vejo no seu olho, que tem algo bom pra você alí na frente”. Entre ditados, frases e chavões a conversa fluiu durante os 20 minutos mais tranquilos da minha semana, parecia um daqueles casos estranhos onde eu nunca mais veria o Sr.Heitor, e ele somente teria passado por mim, para agregar e responder algumas coisas que até então, não me cabiam a resposta.

Desci do ônibus, ainda cansada, esgotada física e mentalmente, mas a energia já não era tão ruim.
Um sentimento bom por toda a bagagem que aquele velho me passou. Senhor Heitor do 407.

407 – o apartamento no qual Heitor disse morar.